quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O CORAL GREGORIANO DE SANTOS



De vez em quando, numa missa, os fiéis são surpreendidos por um coro de homens que cantam em latim, uma música que, hoje em dia, só se ouve em filmes sobre tempos antigos, ou em alguma cerimônia televisada diretamente do Vaticano.

Outras vezes é num casamento que os circunstantes são surpreendidos por um coral masculino que, mesmo em polifonia, só canta músicas dos velhos tempos, despertando em todos as saudades de épocas passadas, em que a liturgia era mais solene e os cantos litúrgicos mais elaborados, cantados por vozes escolhidas, ao som de verdadeiras orquestras.

A impressão é sempre favorável, mas o coral aparece e desaparece como se fora uma visão de tempos passados, deixando sempre uma interrogação no ar. Que coral é esse? De onde é? Como é que se faz para conseguir. a sua participação numa cerimônia?

Não há nenhum mistério. O CORAL GREGORIANO DE SANTOS foi fundado em 1972. por um grupo de amantes da música sacra, em sua maioria exseminaristas. Os primeiros tempos foram difíceis devido à dificuldade para a aquisição de material necessário para estudo e desenvolvimento do grupo, uma vez que não se encontravam obras em gregoriano à venda nas casas especializadas e, nas igrejas e conventos, os belos Missais, Kyriales, Antiphonários, Liber Usualis etc., haviam sido jogados no lixo, quando não queimados, como pudemos verificar algumas vezes. Respigando, entretanto aqui e ali, conseguiu, O Coral Gregoriano, no decurso de todos esses anos acumular um respeitável acervo de obras de música sacra antiga que, graças aos seu cuidados está sobrevivendo, e o que é melhor, sendo usado até hoje.

No inicio, entretanto, vivia o Coral de ensaios e estudos, lutando para sobreviver, sem encontrar oportunidades para se apresentar, sofrendo uma verdadeira rejeição por parte dos meios religiosos, que deveriam ser os mais interessados em manter o valor cultural, a beleza melódica, a tradição de séculos que se encerram no Canto Gregoriano, quando não, ao menos em obediência às decisões do Vaticano II que na

Constituição "Sacrosanctum Concilium" (116) diz: "A igreja reconhece o canto gregoriano como próprio da liturgia romana. Portanto, em igualdade de condições, ocupa o primeiro lugar nas ações litúrgicas '.

Um artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO de 26 de agosto de 1974, sobre o ressurgimento do interesse popular pelo Canto Gregoriano estimulou o grupo a continuar intensificando e aprofundando mais ainda o cultivo do referido canto.

Em um reunião ocorrida em dependência da Basílica de Stº. Antônio do Embaré, então dirigida pelo vigário, Frei Alexandre Tognoli O.F:M. (já falecido) foram tomadas várias resoluções que aliadas à cordial acolhida que lhe foi proporcionada por aquele sacerdote, deram ao grupo mais organização e consistência.

Escolhido como regente do grupo, Frei Alexandre, organista emérito, compositor e arranjador de reconhecida qualidade, foi adotado o nome de CORO PASTORAL GREGORIANO, ficando estabelecida como sua sede a Paróquia do Embaré.

Os ensaios, quinzenais, passaram a ser realizados regularmente, na 2.a quintafeira e 4.a sextafeira de cada mês, às 20h30.

O Coral passou a ter uma apresentação mensal garantida, pois Frei Alexandre programouo para a Missa Vespertina do 3.o sábado de cada mês.

As demonstrações de agrado por parte do público ante tal iniciativa, começou a franquearlhe outras igrejas e, para um ritmo constante de atuações, destinou--se o l.o sábado ou domingo de cada mês para essas apresentações fora da Paróquia do Embaré.

Constituiu-se então a primeira diretoria eleita, formada pelos seguintes elementos:

Constantino Bento Júnior (Coordenador); José de Moura Ferreira (Secretário); Luiz Carlos Peres (Regente Substituto) e Antônio Sansivieri (Rel. Públicas).

Com o falecimento de Frei Alexandre, em 13/02/75, viu-se novamente o Coral sem apoio artístico e sem base territorial para suas atuações.

Durante pouco mais de um ano atuou, o coral, sem base fixa, sob a direção do regente substituto, apresentando-se esporadicamente, em cerimônias e festividades litúrgicas em várias igrejas da cidade e vizinhanças.

Em março e 1976, já sob a direção do Pe. Joaquim Ximenes Coutinho, o grupo ganhou nova alma, aprofundando-se mais no estudo do canto gregoriano, apresentando-se com regularidade e introduzindo em seu repertório algumas peças polifônicas.

A partir dessa época, conhecido e designado, nos meios artísticos e religiosos da Cidade como CORAL GREGORIANO DE SANTOS, acabou por adotar definitivamente esse nome.

Em janeiro de 1980 o Coral Gregoriano de Santos promoveu um curso de Canto Gregoriano, aberto ao público em geral, o qual foi ministrado, no Colégio São José, por Frei Joaquim D. Alves, O.F.M. cap, com duração de 5 dias e versou sobre a história, a teoria, a técnica e a interpretação do Canto Chão.

Formado sela Faculdade de Artística e Musical Sta. Marcelina, de Botúcatu e, em Canto Gregoriano, pelo Instituto Pio X do Rio de Janeiro, Frei Joaquim marcou, com esse curso, mais uma etapa na trajetória ascensional que o Coral Gregoriano de Santos vinha experimentando.

Convidado pelo delegado regional do Litoral, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, Sr. SÉRGIO FREIRE PINTO, para organizar um recital de música sacra, comemorativo da festa de N.S. do Monte Serrate, padroeira da Cidade de Santos, associou-se o Coral Gregoriano de Santos, com o Madrigal "Ars Viva", no empreendimento, conseguindo ambos promoverem um espetáculo de música sacra de grande sucesso, quer pelo numeroso público presente, quer pelo alto nível artístico técnico e pedagógico conseguido, pois os repertórios dos corais que se apresentaram foram programados de maneira a cobrir toda a história da música: do Gregoriano aos compositores mais recentes, o que, complementado por uma clara explanação, ao início do espetáculo, deu ao mesmo o cunho de uma excelente e agradável aula, cuja originalidade foi por todos os presentes, elogiada.

Para o Coral Gregoriano, particularmente. foi uma agradável surpresa a ótima receptividade manifestada, pelo público e pelos participantes e dirigentes dos demais corais, à sua participação em promoção de cunho artísticocultural, fora do ambiente religioso que era até então o seu "habitat".

Desde então, o coral tem-se mantido em maior ou menor evidência, participando de encontros de corais, dando concertos em igrejas e, a pedido de pessoas e entidades que ainda admiram e reconhecem no Canto Gregoriano uma capacidade ímpar de exprimir o sentimento religioso, atuando em missas e casamentos.

Assim participou de solenidades, como a missa inaugural do Museu de Arte Sacra, da missa de Requiem, por ocasião do falecimento do candidato a governador do Estado Esmeraldo Tarquínio, da missa de 7.o dia em sufrágio do pai do maestro Bruno Roccella, da missa pelo "passamento" da pranteada professora d. Maria Luiza, a pedido do conservatório Lavignac.

Não podendo o PE. Ximenez, devido, aos seus afazeres, continuar dirigindo as apresentações do coral, passou à função de Assistente Eclesiástico, sendo convidado e nos honrando com a sua orientação artística, o maestro Sá Porto, até seu falecimento em 30 de novembro de 1997.

Por iniciativa desse querido Maestro, passou o Coral a ensaiar numa garagem da Reitoria da Universidade Católica de Santos, recentemente fundada, onde antes ensaiava o extinto CUCAS.

Com a criação da UNIARTE, pelo 1º Reitor, Pe. Dr. Waldemar Valle Martins, que havia sido colega de Seminário de vários dos integrantes, o Coral Gregoriano foi o primeiro grupo artístico convidado a integrar esse Departamento da Universidade dedicado à promoção da arte, sendo o seu regente substituto, Dr. Luiz Carlos Peres, convidado a ser o seu Coordenador.

De então para a frente, com o aval e o apoio logístico Da Universidade, o Coral ganhou novo impulso, apresentando-se, há mais de 10 anos, na Missa das 11 horas do 2º Domingo de cada mês, no Convento do Carmo e, também, com igual continuidade, na Missa de Finados, da Memorial Necrópole Ecumênica. É convidado, há vários anos, a cantar na Missa Comemorativa do dia de Stº . Inácio, promovida anualmente, pelos padres Jesuítas na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), em Stº André; participou ainda por disposição testamentária do ilustre extinto, da missa de 7º dia do famoso filólogo e dicionarista, Francisco da Silveira Bueno, na igreja da Consolação, em S.Paulo.

Não podendo mais o Maestro José de Sá Porto, continuar na regência do coral, por suas múltiplas atividades, nem podendo assumir o regente substituto, por ser o Coordenador do Projeto Cultural da UniSantos ( nome dado à Uniarte, pela 2ª Reitoria, em 1990), o coordenador do Coral, Sr. Constantino Bento, assumiu, cumulativamente a sua regência, apoiado pela competência do organista, Maestro Manoel Roberto Lopes, que se encarregou, outrossim, do repertório polifônico.

Novos elementos ingressam frequentemente no coral, cobrindo a falta dos muitos que faleceram durante essa longa caminhada,(só dois fundadores sobrevivem), sem diminuir o ímpeto do seu progresso em aumentar o repertório, e em interpretá-lo sempre com maior fidelidade e sempre com grande unção e piedade.

A fama do Coral Gregoriano de Santos já ultrapassou os limites da cidade de Santos, da Baixada Santista e até do Estado de São Paulo.

Entretanto é com tristeza que seus integrantes vêem os anos passarem sem que a Igreja no Brasil recoloque o Canto Gregoriano no lugar de destaque determinado pelo Concilio Vaticano II e que tem sido reafirmado pelos últimos Papas. A atual geração de padres ante-conciliares está envelhecendo e nos seminários não se estuda mais o Canto Gregoriano.

Guardiões dessa chama votiva da cultura e do sentimento religioso de tantos séculos, satisfeitos embora, com o crescimento conseguido, pois não obstante só dois fundadores permaneçam vivos, dos 15 que o iniciaram, o CORAL GREGORIANO DE SANTOS, tem hoje 31 integrantes, e espera que novas gerações de músicos, se não de religiosos, venham render a guarda, para que essa chama votiva não se apague e não se perca com ela as próprias origens da música como a conhecemos.

HOMENAGEM DA CÂMARA MUNICIPAL DE SANTOS AOS 30° ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO DO CORAL GREGORIANO DE SANTOS - JUNHO/2003

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